NÃO SOU CHARLIE HEBDO

Nada justifica o terrorismo civil, e nem o de Estado, ambos
devem ser combatidos e desarticulados. Nada justifica o extremismo. A
liberdade de imprensa é uma das bases da democracia. Em minha opinião, tudo
tem limites, e a dose certa é o que lapida o debate e torna-o produtivo. A
liberdade não deve se transformar em libertinagem. A ironia esteve presente
na obra dos grandes filósofos como Sócrates, Platão, Aristóteles, Tales,
Pitágoras e Heráclito. A ironia socrática era antes de tudo o método de
perguntar sobre algo em discussão, de delimitar um conceito e contradizendo-o, refutá-lo de forma alegre e bem humorada, confirmando o
dito popular; “de forma irônica que dizemos as maiores verdades do mundo”. Mas tudo tem limites. “O Pasquim” foi um semanário alternativo brasileiro
fundado pelo cartunista Jaguar e pelos jornalistas Tarso de Castro e Sérgio
Cabral em 1969, em plena ditadura militar. Esse nome, que significa “jornal
difamador, folheto injurioso”, foi sugestão de Jaguar. Reconhecido por fazer
a contra cultura e a oposição ao regime militar, usava e abusava da ironia.
Em meados dos anos 1970, se tornou um dos maiores fenômenos do mercado
editorial brasileiro. Enfrentou os canhões da ditadura e a ira da sensura
sem nunca insultar crenças. Não sou Católico, nem carola, mas sou cristão.
Não me agrada a figura de Jesus Cristo poder ser transformada em piada. Para
mim, que não sou um exemplo, agravaria e seria repugnante caso envolvessem
Sua Mãe Maria em imagens, falas ou textos jocosos … talvez por ser mulher
e mãe. Nesses dias o Papa Francisco, em pleno vôo em uma de suas viagens,
surpreendeu a todos dizendo numa entrevista …”se xingar minha mãe espere
um soco”. O extraordinário líder da Igreja Católica não quis reeditar a Lei
de Talião, que consiste na rigorosa reciprocidade do crime e da pena –
“olho por olho, dente por dente”. Na verdade mostrou coragem e arriscou a
informalidade para ser entendido por qualquer ser vivo, não importando
intelecto, idioma, religião. Como era de esperar, enfrentou críticas dos
que aderem a desordem gratuita e sensacionalista. Os fins não justificam os
meios, contrariando Nicolau Maquiavel no Manual de Política “O Príncipe”. O
que se ganha em satirizar a fé? Não importa se a fé é Mulçumana, Cristã,
Judaica, ou nenhuma fé. Não há nada a mais a satirizar? Lamento pelas
mortes por conta da onda de terror despertada na Europa, aliás, mortes dos
dois lados. Parece a nascente de um rio de sangue. Para que tudo isso? O
extremismo deve ser combatido em todas as esferas, assim como a
irracionalidade, a ignorância e o terrorismo. O diálogo precisa voltar, caso
contrário muitos inocentes poderão pagar pela intolerância.

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