O que eu tenho com isso?

As rebeliões em presídio não podem ser consi­deradas um caso fortuito. Lembram mais a crônica de mortes anunciadas. Superlotar espaços que são edifi­cados para abrigar metade ou até um terço do número de ocupantes só pode acabar em carnificina. Afinal, os reclusos são seres humanos que se consideram in­justiçados, têm ressentimento e quando submetidos a disciplina rígida e a condições desfavoráveis, liberam mecanismos instintivos de violência reprimida.

A recorrência de episódios tais deveria servir para uma profunda reflexão coletiva. Quem está dis­pensado de pensar a respeito e de procurar pistas de fórmulas racionais de enfrentamento do assunto?

Ninguém está excluído desse debate. Primeiro, porque é um tema de interesse nacional e se não for adequadamente equacionado, interferirá na vida de to­dos os residentes no Brasil. Em seguida, porque a de­linquência é um fenômeno social, não é um problema exclusivo do governo. Aos poucos, fomos produzindo as condições favoráveis ao surgimento de uma crimi­nalidade precoce, cada vez mais intensa.

A experiência evidencia que o delito é praticado pelos jovens. Se conseguíssemos conscientizar os mo­ços de 15 a 24 anos de que há outros caminhos a se­guir para a consecução dos objetivos existenciais que não o crime, cerca de 80% do flagelo da delinquência estariam debelados.

Por que chegamos a esse ponto?

Há um conjunto de causas. A primeira é o de­clínio dos valores. Honestidade, probidade, seriedade, lisura e outras virtudes encontram-se muito despresti­giadas. Disseminou-se uma percepção de que não vale a pena sacrificar-se ou passar necessidades. A vida é breve e precisa ser curtida.

As instituições que auxiliavam a blindagem da criança e do jovem, protegendo-o da peste do mal, fo­ram aos poucos perdendo força. Família era um nú­cleo formador do caráter, de transmissão dos atributos caracterizadores da pessoa de bem, escola de disci­plina e de trabalho. Pais exerciam autoridade e, infe­lizmente, o conceito passou a significar autoritarismo. Corrigir passou a representar opressão. O Brasil edi­tou a “lei da palmada”, consequência de se encarar a repreensão como intolerável forma de traumatismo do ser educando.

A Igreja – seja qual for a confissão religiosa – flexibilizou-se para não ser de todo relegada. Acon­teceu no mundo inteiro. É uma tristeza verificar na Europa Continental que inúmeros templos, repositó­rios arquitetônicos e históricos que acolheram emo­cionantes manifestações de fé, hoje servem a outras finalidades. Foram transformadas em boates, bares, casas de comércio, quando não mereceram destino menos nobre.

A escola foi perdendo prestígio. Não acompa­nhou a profunda mutação dos costumes e foi de lon­ge superada pelo avanço tecnológico. Vivencia-se a quarta ou quinta Revolução Industrial e a sala de aula continua, em tese, com o mesmo design.

Qualquer modificação do sistema encontra óbi­ces, naturais quando se considera a força da inércia, mas também ditados por interesses setoriais, nem sempre vinculados ao bem comum.

A constatação é cruel: a sociedade está enferma. Encarcera o infrator jovem que ela mesma produziu e descumpre a obrigação de ressocializá-lo para que sua reinserção no meio social se faça de maneira tranquila.

Não chega a um acordo sobre o que fazer com essa população carcerária que só cresce. Construir mais presídios? Continuar a sustentar esse equipa­mento em que cada unidade onera o orçamento pú­blico mais do que o dobro do custo de uma escola de qualidade?

A cidadania está com esse desafio em seu colo: o que fazer com a questão carcerária? Chegar-se-á a um consenso neste momento em que a percepção ge­neralizada é a de que só existe um consenso no Brasil: a mais absoluta falta de consenso?

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 13/01/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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