Educação e Trabalho: uma conexão necessária

O Brasil é competitivo em muitos setores, como a exploração de petróleo e gás em águas profundas, a produção de grãos e carnes e bioenergia – condição alcançada em consequência do desenvolvimento de conhecimentos dirigidos a questões bem definidas, com investimentos continuados, articulação entre o setor público e o privado, e de uma base de formação de recursos humanos, capaz de implantar e sustentar sistemas produtivos e realimentar o ciclo de produção de conhecimentos.

Mas o país não é sistemicamente competitivo. Em outras palavras, as virtudes presentes nos setores mencionados não se estendem a toda a economia. É certo, há fatores limitantes de todo tipo: na infraestrutura, no sistema tributário, na regulação, no ambiente de negócios e assim vai. Destes fatores precisam ser destacadas as carências educacionais, que manifestam-se na economia como escassez de recursos humanos capazes de dar conta de tarefas de toda ordem no mundo do trabalho. Pelas características do processo educacional, como a sua longa duração, natureza cumulativa e capacidade de estimular o desenvolvimento cognitivo das pessoas, a educação tem reflexos muito mais profundos sobre o desenvolvimento social e econômico do que qualquer outro fator.

Por isso, quando a competitividade do país é apontada como elemento chave para um novo ciclo de desenvolvimento do país, como citou a Presidente Dilma Rousseff em seu discurso após a divulgação dos resultados eleitorais de 2014, e como citam economistas e empresários, a definição do papel estratégico da educação é uma decorrência imediata. Daí, o lema Brasil, Pátria Educadora.

O contexto histórico em que este quadro se inscreve é o de uma sociedade em que o conhecimento assume a posição de mais importante força estruturante, determinando rápidas mudanças nos comportamentos sociais e na produção, em que a inovação torna-se cada vez mais relevante. E, como consequência, exigências de maior capacidade de adaptação, de uso de sistemas e aparatos sofisticados e de inserção num mundo cada vez mais complexo em termos de cultura, diversidade e dos demais elementos que permeiam a vida cotidiana. É evidente que todas estas demandas afetam o que se espera da educação. E que o seu reflexo mais visível seja a ampla percepção da importância do aumento da escolaridade de toda a população, inclusive como instrumento indispensável em todos os elos das cadeias produtivas. E que a necessidade de educação permanente seja estendida a todos.

O Brasil não será sistemicamente competitivo nem uma potência da nova economia sem educação de boa qualidade. A boa educação, que permite formar a pessoa para desenvolver os seus potenciais e inscrever-se nos círculos da cidadania, mas também a educação para o trabalho, que organiza a vida e confere dignidade. A educação básica, que fornece as competências para decifrar e utilizar os códigos que organizam o mundo, incluindo as tecnologias contemporâneas, e também para compreender a natureza e a sociedade, é o primeiro extrato da educação para o trabalho. E, de longe, a mais importante. Inclusive porque permite desenvolver as competências básicas para a vida prática, como as competências relativas à comunicação, à organização, à apreensão de informações, ao estabelecimento de relações, à extração de conclusões e à atuação em equipes. E que deve ser complementada, é certo, por estratégias próprias para a preparação para o trabalho, como a educação profissional e os estágios.

Mas aqui surgem dois grandes desafios. O primeiro, a dificuldade conceitual para admitir que o processo educacional deve formar, sim, para a vida, mas isso inclui a formação para o trabalho, que é ingrediente fundamental da vida. Por esta dificuldade, a educação é hierarquizada, e a formação para o trabalho permanece numa posição baixa na formulação dos processos educacionais e no imaginário de quem tem como horizonte os níveis educacionais mais altos. Naturalmente, isso se relaciona com outros fenômenos sociais, que determinam uma hierarquia inferior para as atividades laborais consideradas menos nobres. O segundo, evidentemente relacionado ao primeiro, a incompreensão de que o trabalho educa por si. Daí decorre a separação temporal entre a educação geral e a educação para o trabalho, ficando esta etapa sempre deixada para depois da conclusão da primeira. E também a desvalorização, na sociedade brasileira, das experiências de trabalho como ferramentas pedagógicas. Além da fixação cultural de um momento de transição entre a vida de estudante e a vida no mundo do trabalho. Se as exigências de educação permanente ao longo da vida adicionam educação ao exercício do trabalho, porque o trabalho não deve ser exercitado em etapas anteriores do processo educacional? Que sentido tem uma transição brusca entre educação e trabalho na vida das pessoas?

A escola não pode competir como o futuro, tem que ajudar a construi-lo. Por isso, a conexão entre educação escolar e trabalho é fundamental. É preciso abrir espaço para concepções, metodologias, experiências e processos avaliativos que produzam e reforcem esta conexão. E dar a devida importância às evidências: não é sem razão que muitos dos mais bem sucedidos estudantes nos níveis educacionais mais altos foram aprendizes, estagiários ou passaram por escolas profissionais. Histórias parecidas com as de muitos grandes profissionais.

 

*publicado originalmente na Revista Alma Mater no 4, ano 2, abril/2015.

 

 

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