SENHORES SENADORES

Senador vem da latina senior, que significa mais velho. Não conota idade
provecta, mas condição respeitável. Os mais velhos mereciam respeito nas
tribos primitivas por causa da sua experiência, o que os tornava capazes de
aconselhar os mais jovens – seu dever era evitar que as gerações
inexperientes respeitassem os erros deles. O Senado romano reunia os
patrocínios mais respeitáveis para conduzir os negócios republicanos, ou
seja, da coisa pública. Nas democracias de poder tripartite e representação
bicameral, como pretende ser a nossa, os senadores são representantes das
unidades federativas, os Estados. Misturam-se, no modelo imitado do sistema
bicameral adotado pelos países fundadores da revolução Americana, o mando
romano e a estirpe nobre dos barões britânicos. Pode-se argumentar que, já
entre os romanos, nem sempre a respeitabilidade era sinônimo de
superioridade, como o demonstram conspirações, caso da que terminou por
abater Júlio César sob a estátua de Pompeu, á entrada do edifício onde se
reuniam os senadores, freqüentando por serpentes afiadoras de punhais. E que
o sangue azul dos lordes ingleses não garante sua nobreza de atitudes, não
sendo a Câmara de Lordes, assim como o Senado americano, um convento
habilitado por freirinhas virtuosas. Isso não quer dizer, contudo, que a
lenda segundo a qual não existe pecado no lado de baixo da linha do Equador,
corrente desde a Renascença, permita um acréscimo de letras capaz de
transformar o que não é convento num conventículo, sinônimo pouco empregado
de prostíbulo. A imagem é pesada demais, é certo, mas a verdade é que, os
senadores no Brasil contemporâneo têm abusado demais da paciência dos
cidadãos que lhes sustentam os luxos e caprichos sem receber em troca o
exemplo de decência e austeridade que de todos eles é lícito esperar.
Ratificar como lacaios o valor do salário mínimo de R$ 865 enquanto embolsam
somente de salários diretos de cerca de R$ 33.000 é um escárnio
considerando que um professor depois de 30 anos de magistério levaria 21
meses para acumular somente seus salários diretos. Fisiologistas e covardes.
Nossos Senadores na sua maioria não representam senioridade e sapiência,
representam uma casta de aproveitadores que nos envergonham com conversas e
propostas eleitoreiras.

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Tempos modernos…

Muito interessantes esses tempos modernos, tão diferentes, rápidos e impacientes, que sempre mesmerizaram o homem desde que este começou a desvendar a natureza – considerando que este ‘escriba’ possa redefinir de moderno tudo o que revela os segredos do velho e vai muito além, passando a criar um novo.

O incrível ‘bicho-homem’ não só tem conseguido revelar o que a natureza escondeu por bilhões de anos como também passou a dominá-la, confundindo a sua identidade, camuflando a sua forma e alterando o seu curso.

Ninguém sabe no que vai dar, como também ninguém saberia se assim não fosse, porque, nesta altura, Deus deve ter deixado que do futuro cuidem – às suas próprias custas – aqueles que fez à Sua imagem e semelhança…

Pena que a vida humana – no que concerne ao indivíduo – continue tão curta, apesar de tanta evolução, e a curiosidade do homem seja, paradoxalmente, cada vez mais estimulada pelo conhecimento que ela mesma foi, avidamente, buscar!

Pra ficar só no campo da comunicação, conta a história dos homens que um dia – não tão distante assim – percebemos que precisávamos grunhir pra nos entender.

Como não conseguíamos entendimento, inventamos palavras e demos nomes aos bois e a todas as outras coisas. Vieram os palavrões e as ofensas.

Insaciáveis, quisemos imortalizar a conversa e veio a escrita e o registro do que falávamos – ou imaginávamos que nós ou alguém tivesse dito – tanto do boca-a-boca carinhoso como do bate-boca inevitável.

Obstinados, acabamos criando aparatos de imagem, de som e de texto só pra manter tal ‘chama’ – no caso, a conversa – acesa. A presença física se tornou totalmente dispensável, eis que o ‘virtual’ se tornou bem mais interessante…

Aliás, o homem tem modificado tão vertiginosamente o seu meio que acabou mudando também a noção de longevidade da sua própria existência individual: enquanto viver se torna ‘arte nova’ em questão de alguns anos graças à tecnologia, a complicada natureza humana não se deixa adulterar com a mesma facilidade.

A sensação que se tem é que a vida da gente, em sua plenitude natural – apesar de estatística e indubitavelmente mais longa! – vai se tornando cada vez mais passageira e inoportuna…

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O público da repartição (Final)

“Art. 331: Desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela – Pena: detenção de seis meses a dois anos ou multa.”

Este foi o aviso que eu li enquanto, cheio de esperança, procurava nas paredes daquela repartição alguma orientação sobre a melhor fila e o melhor guichê para o meu caso.

Acabei tendo que perguntar, mas não sem o receio de ser preso e a frustração de ser mal informado…

Pesquisando depois, descobri que tal prevalecente aviso decorre do Decreto-Lei 2848, de 7 de dezembro de 1940, sancionado exatamente um ano antes do ataque a Pearl Harbor, em plena guerra indo-nipo-sino-europeia-americana-pan-humanoide, ainda no tempo de Getúlio e dos parcos réis disponíveis aos mais desamparados em terras tupiniquins.

Tal aviso onipresente goza, assim, do incontroverso – mas discutível à exaustão do lado mais fraco – amparo da lei…

As instituições públicas no Brasil – salvo algumas heroicas melhorias impostas pela visibilidade trazida via globalização forçada da Internet – sempre abusaram do suposto poder do servidor em relação ao cidadão ordinário.

Especialmente os indivíduos menos providos de recursos e, portanto, sem acesso efetivo a um representante da lei são – ainda! – humilhados em esperas sem fim e ludibriados com exigências absurdas e mentiras esfarrapadas que afrontam o bom senso e a lógica, rumo à concessão de um definitivo e poderoso não, em detrimento do servil demais talvez.

Surpreendentemente nestes dias em que a noção paisana evolui e prolifera, há prestador de serviço ao público que se traveste de delegado em cenário de “bullying” explícito do tipo polícia-bandido, em que a razão é acuada na vã missão de subjugar a estupidez…

Servir com respeito e trabalhar com produtividade parece ainda não ser preocupação generalizada entre os servidores do público meridional; o que ele indica se interessar é a excelência que imagina em si próprio.

Criadora do “jeitinho brasileiro” – também conhecido como “maracutaia”, “gambiarra”, “cafezinho”, “jabá”, “gato” (pobre nobre felino), etc – eis que a toda ação corresponde reação igual e contrária, a repartição pública é hoje vítima do seu próprio veneno, fato que já se evidencia pela presença de idosos e mulheres grávidas pagos pra fazer serviços de empresas nos balcões e caixas filantrópicos, pra não se alongar demais com casos mais cabeludos que acontecem por debaixo dos panos….

Enquanto a decência descamba, o crente involui pra mero contribuinte, e, como eleitor, é transformado num simples voto barato no discurso das promessas sem pagador.

Em ambiente em que a eventual boa intenção de alguns abnegados sucumbe à cepa contaminada reinante, compõe-se no guiché um cenário de incompatibilidade e hostilização recíprocas, e se percebe que não se é mais caravana, mas apenas um velho cão que ainda ladra…

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O Dia da Mãe

Tudo começou nos anos 50 – 1850s! – quando a americana Ann Reeves Jarvis organizou equipes de mulheres e formou os chamados “grupos de trabalho do Dia da Mãe…

Tais grupos visavam melhorar as condições sanitárias e diminuir as taxas de mortalidade infantil, combatendo doenças e tentando minimizar a contaminação do leite.

Atuaram também ativamente no atendimento aos soldados feridos – nortistas ou sulistas – durante a Guerra Civil nos anos de 1861 a 1865.

Após a guerra, Jarvis continuou se empenhando em promover a reconciliação dos ex-combatentes, ao mesmo tempo em que mobilizava mulheres pra se envolverem mais no papel politico de promover a paz.

Contudo, foi sua filha Anna Jarvis a maior responsável pela criação do “Dia da Mãe” (“Mother’s Day”) como o conhecemos.

Ironicamente, Anna não teve filhos, mas a partir da morte de sua mãe em 1905, dedicou-se freneticamente à criação de um dia dedicado à mãe, e, gradualmente, cidades americanas passaram a estabelecer um dia especial pra homenagear a mãe de seus cidadãos.

A adesão de mais cidades e estados foi crescendo até que o presidente Woodrow Wilson oficialmente determinou o segundo domingo do mês de maio para a celebração.

Era o ano de 1914, o que faz deste 2014 o ano do centenário oficial desse dia tão especial!

Hoje, mais da metade das nações celebra o evento com os americanos, ou seja, no segundo domingo do mês de maio.

Outras tantas ajustaram seus calendários em função da existência anterior de outros feriados nacionais importantes.

Mas nenhuma delas deixou de destacar um dia pra prestar tributo à mulher que mais se aproximou da concepção de santa em qualquer religião…

Na aspiração de sua fundadora, o “Dia da Mãe” não deveria ter se tornado o “Dia das Mães” puramente comercial que começou a se formar logo em seguida à criação da data, contra o que lutou até o final de sua vida, ocorrido na miséria, internada num sanatório.

Apesar dos protestos vãos de Anna Jarvis, as vendas do comércio ocidental que antecedem o dia do evento em homenagem âs mães só perdem para as vendas natalinas…

Mas ficam suas palavras:

– “É o dia em que você vai pra casa e o passa com sua mãe, agradecendo-a por tudo que ela fez. Não é um preito a todas as mães. É uma exaltação à melhor mãe que você conheceu – a sua mãe! – como filho ou filha!”

Um felicíssimo dia àquela que você, privilegiado numa relação única, sublime e atemporal, chama de “mamãe”, “mãe”, “mã”, “manhê”, “mama”, “mamis”…. e ela ainda responde, com brilho nos olhos, sempre e prontamente: “o que você quer, meu amor?”…

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Pra ficar grilado…

O paladar ocidental com certeza já se estabeleceu ao seu próprio gosto.

Comer inseto? Eca! Só se for naqueles programas da TV que abordam sobrevivência na selva – com ou sem roupa – e comida bizarra.

Na vida real, não é coisa fácil de engolir, mesmo diante da insistência dos cientistas de que os hexápodes são uma fantástica e sustentável fonte de proteínas, boa para o ambiente e pra toda a gente…

Apesar dos hábitos insetívoros de muitas culturas orientais, dos mandruvás devorados em alguns países africanos e dos “chapulines” (gafanhotos) no vizinho México, os glutões americanos ainda sucumbem à repulsa de comer insetos.

– “Até agora!” – garantem três recém-graduados de Harvard que fundaram a empresa Six Foods há apenas alguns meses.

A estrela principal é o “Chirps Chips” (algo como “salgadinhos cricrilantes”), feito com grilo seco moído.

– “Descobrimos que as pessoas não comeriam um grilo em sua forma original, mas seco e transformado em pó desce bem!” – explica um dos criadores da empresa.

Assim, juntamente com o chef da Sofra Bakery & Cafe em Cambridge, Massachusetts, desenvolveram a iguaria, experimentando várias receitas até chegarem ao salgadinho definitivo; moendo e juntando grilo seco, feijão preto, feijão roxinho e arroz.

– “Tem o mesmo gosto de ‘tortilla chips” com uma pitadinha de feijão, acrescido do sabor de castanha do grilo! E tem 3 vezes mais proteína, metade da gordura do salgadinho de batata e não tem glúten!” – declara empolgada outra fundadora.

Realmente, o grilo é considerado um superalimento – que o diga a tarântula! – porque, quando desidratado, é 70% proteína, tem baixo teor de gordura e é pleno de vitaminas e sais minerais.

Para o bem do ambiente e da sustentabilidade, gastam-se 16 mil litros de água pra produzir 1 quilo de picanha, mas apenas 8 litros para o mesmo quilo de filé de grilo.

Quanto ao gosto, 80% dos países e 1/3 da população mundial já comem insetos.

Portanto, é bem provável que seja uma delícia – e o pulo do gato dos produtores de alimentos!

E – pensando em expansão – de acordo com alguns amigos asiáticos, a larva do caruncho dos grãos dá um excelente torresminho…

Resolvem-se, de uma fritada só, a praga da fome e a praga propriamente dita!

No Brasil, tenho certeza de que o pessoal dos confins do interior, que já come o omelete da bundinha de içá frita pela sua proteína, vai gostar da novidade.

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O direito à tal felicidade…

Uma característica importante que diferencia o Homo sapiens da Apis mellifera é que o indivíduo não precisa viver em função do coletivo, tornando-se mera parte de uma criatura virtual, disforme e incontrolável, dedicada exclusivamente à perpetuação natural.

Muito pelo contrário, foi quando aprendeu a valorizar cada um de seus elementos é que a sociedade humana se diferenciou dos demais seres vivos que co-habitam este planeta tão azul e tão vulnerável, para o bem e para o mal…

Apesar da natureza proselitista do bando, somente o respeito às diferenças individuais tem possibilitado a evolução dessa nossa raça simiesca.

É evidente que não é possível garantir a felicidade às pessoas – mercê do fazer, do não-fazer e do destino de cada um! – mas assegurar aos seus nacionais a possibilidade de persegui-la é obrigação de toda nação que aspire ao nome de civilizada.

Espera-se – dos que poderiam cercear – que estimulem, concedendo condições favoráveis, os que se atrevem a tentar ser felizes… aqueles que insistem em sobreviver fazendo o que gostam… os teimosos que querem viver os seus sonhos… os inconformados que perseguem a maior das liberdades: viver a sua vida ao seu modo!

A tais condições devem se submeter, por consequentes, todos os demais direitos.

É o mínimo que deve permitir o Estado que não provê amparo aos seus infelizes: dar a eles uma chance…

As leis e as regras sociais devem ser compatíveis com a aventura efêmera de viver pelo ideal de cada um. Se não, que os humanos, mancomunados pelo seu próprio bem, imponham que se adequem!

O bem-estar generalizado sempre vai ser utópico, eis que é naturalmente humano se incomodar com o outro e com tudo o que ameaça o jogo primordial da competição – e a sobrevivência da espécie pelo impulso do melhor eu.

Contudo, a única maneira de não haver a utopia  – tão almejada e, ao mesmo tempo, combatida! – é não sonhar e, assim, perder o principal ingrediente da receita da felicidade…

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Catequizar-se ou comer o Sardinha?

Conta a história que o bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha, o primeiro bispo do Brasil, foi devorado pelos índios que tentava civilizar.

Aparentemente, mesmo depois de quase cinco séculos de evolução provocada pelo convívio com outras civilizações, ainda temos nossas recaídas…

Admiramos muito as maravilhas do mundo mais civilizado que vimos lá fora, mas ainda resistimos a abrir mão do nosso jeitinho malandro de levar a vida em casa.

Queremos aprender na escola e ficar mais espertos, mas estudar pra tirar boa nota nas provas e evitar a reprovação, “não sei se vai dar, não!”

Achamos que o esforço de se educar – ou de se tornar um povo melhor – não se motiva pela possibilidade de nada aprender, de falhar, de perder, de não “chegar lá”, de ser, enfim, punido de alguma forma.

Povo “legal” não precisa de leis – e muito menos de punição! – mas isso só existiu no Jardim do Éden, onde tudo era permitido, e todo mundo sabe no que deu.

Sabemos que a norma social deve inibir os maleáveis conscientes e punir os desinibidos, sob pena de total ineficácia, e queremos que assim seja.

Mas ainda ficamos em dúvida se pagamos a conta do jantar ou se pedimos mais um café de graça, enquanto a fila espera a mesa…

Atrás de um volante nos tornamos poderosos e inimputáveis, apesar de saber que estamos entre aqueles que mais matam com suas “máquinas quentes”, como cantava o Roberto Carlos, e de que – salvo a parca informação e a localização “camuflada” – placas, radares e multas de trânsito são partes inseparáveis e imprescindíveis na “catequização” do motorista…

Num país onde a cumplicidade entre os malfeitores é muito mais eficiente – e de melhor eficácia, haja vista a filantropia financeira via Internet – do que a solidariedade entre as pessoas de bem, não ignoramos que a esperança apenas – educacional ou qualquer outra – além de acalmar a angústia de quem espera, quase sempre nada mais alcança…

É preciso que todos nós – que “não sabíamos” – comecemos a sabê-lo, porque existe, sim, muito pecado abaixo do Equador, e se fingir de santo não canoniza ninguém!

Este domingo é o dia da Páscoa, do hebraico Pessach.

É o dia da passagem, em que os judeus comemoram a libertação e a fuga de seu povo escravizado no Egito, em busca da Terra Prometida.

E os cristãos celebram a ressureição de Jesus Cristo, morto por crucificação três dias antes, e a sua divina passagem para junto do Pai.

Que esta Páscoa nos faça passar a usar o exemplo daqueles que sempre procuraram buscar a terra prometida – bem como o sacrifício e a volta triunfal de Cristo! –  induzindo-nos a ressuscitar a virtude nesse nosso Monte Pascoal, nem que seja bem depois do terceiro dia de sua morte…

Feliz Páscoa e boa catequese aos tupiniquins, tupinambás e caetés de boa vontade que ainda existem em todos nós!

 

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Meu amigo, meu amor

“Ah… Fica mais um pouco. Ainda é cedo. Vamos brincar mais, vá…”

A amizade da infância parece ter o poder de eternizar a criança que um dia fomos.

É aquela que nos faz despir a blindagem que a experiência nos dá e mostrar a nossa alma.

Arranca-nos a inibição e nos traz de volta a inocência irresponsável do menino disfarçado que ainda somos, fazendo-nos sentir de novo a segurança do bando…

Chamamo-nos por grunhidos e assobios, inventamos algum apelido – às vezes alguma corruptela do próprio nome – tentando criar códigos íntimos que só nós sabemos e que nos torna especiais.

Começamos repartindo brinquedos e tudo que conseguimos ter, desde então, não tem passado de novos brinquedos que só têm graça quando os conseguimos compartilhar entre nós.

As aventuras e até os romances ficaram maiores – e as desventuras muito mais suportáveis! – com a cumplicidade constante do amigo querido.

A fascinação entre dois parceiros só se completa e se torna amor quando o tempo consegue mitigar o egoísmo individual e adicionar a solidariedade, mas a nossa amizade já nasceu plena do amor na sua melhor forma.

Agora a morte, essa irresponsável que muitas vezes chega sorrateira e quando bem entende, sem o menor respeito à agenda do dia ou aos planos de amanhã – e muito menos aos anseios vãos do coração humano – o separa abruptamente de mim.

Meu único consolo é saber que os amigos de verdade como você nos dão tanta vida que, mesmo quando nos matam com a sua morte, ainda nos permitem – num último gesto de generosidade! – seguir vivendo graças às recordações perpetuadas no coração.

Obrigado, meu querido amigo, por tudo que conseguimos brincar juntos nesta vida!

Arrependo-me do fato de não termos sido capazes de compartilhar muito mais momentos na nossa fugaz e complicada existência, mas aqueles que vivemos juntos foram as brincadeiras mais felizes que eu tive…

Adeus Estacião!

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A opressão do relógio

Grande parte da atividade humana é baseada no tempo medido em horas e minutos.

Time is money! E dinheiro é tudo que precisamos pra ser feliz…

Insistimos em dividir nosso dia em frações quantificáveis: as horas, os minutos e, em alguns casos mais extremos, os segundos.

Tais capatazes autoimpostos determinam quando tarefas devem começar e acabar, obrigando-nos a bater o ponto o tempo todo.

É um sistema ao qual nos familiarizamos mais e o que mais faz sentido na economia – e na vida – moderna, mas nem por isso nos faz mais felizes.

O tempo baseado em hora e nas frações que a compõem é consequência da rotação da terra, que faz nascer e se pôr o sol.

Contudo, a hora de 60 minutos é totalmente arbitrária. É um desmembramento antinatural do dia. Um legado da matemática babilônia que se invocou com a base 60 e da preferência dos egípcios pela dúzia no mostrador do relógio.

Se nossos ancestrais tivessem usado a base 10 – como o fazemos em quase tudo – a hora que conhecemos duraria 20% mais…

A importância da medição do tempo gasto em tudo que fazemos virou moda a partir do americano Frederick Winslow Taylor, um ex-torneiro mecânico dedicado ao seu torno, que estudou, tornou-se engenheiro e publicou “The Principles of Scientific Management”, em 1909.

Taylor pregava a análise científica e o levantamento do tempo consumido pelas diferentes tarefas executadas pelos operários, ou seja, os gerentes de produção deveriam medir quanto demoravam as diversas etapas do trabalho dos seus funcionários e determinar o tempo ideal de cada uma.

Uma vez encontrada a forma mais rápida, tornava-se norma a ser seguida por todos os demais trabalhadores.

Embora a versão original do Taylorismo acabasse se mostrando muito rígida para a sociedade moderna, sua essência de valorizar a hora trabalhada ainda permanece, eis que a maioria – em todos os níveis profissionais – prefere ser remunerada pelas horas que o trabalho demanda.

A maldição da hora é que pesquisas têm demonstrado que, para uma grande parte de trabalhos e quaisquer níveis de remuneração, os horistas-masoquistas trabalham por mais tempo e se importam menos com o lazer.

Sofrem mais estresse quando estão de folga e se preocupam mais com a falta de trabalho do que os não-adeptos ao tempo é dinheiro.

Férias – angústia suprema! – representam perda de dinheiro e qualquer atividade fora do trabalho e, portanto, não paga por hora se traduz em mais suplício.

Tais estudos também revelam que o problema é mais grave entre aqueles que ganham mais, porque o seu tempo é mais valioso e, assim, menos desperdiçável…

Ocorre que nada admirável acontece pelo simples passar do ano ou do mês – e o que se pode dizer do transcorrer da hora ou do minuto?

O relógio não há de ser a única forma de organizar atividades – e muito menos de definir comportamento.

É possível conciliar melhor deveres e direitos e harmonizar a obrigação do trabalho com a necessidade do lazer, procurando o prazer em ambos.

Considerando-se que a vida é uma atividade que despreza o tempo, poder-se-ia optar pela simplicidade da empreita, na qual continuaríamos fazendo as coisas, os sonhos e os planos até que terminem, não importa se tomam horas, dias, meses ou anos.

Se não, continuaremos a viver, afobados, com a noção de que o tempo é curto e urge, o que nos leva, inexoravelmente, à conclusão de que não vivemos.

E a esperança, que acredita na vida eterna – com ou sem reencarnação – vai, cansada e vã, aos poucos aumentando a sua religiosidade e se transferindo para a eternidade…

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Aos sessenta, setenta…

Aos sessenta, setenta…

Os babyboomers estão ultrapassados – o bebê ficou velho.

Chegaram àquela idade que, muito longe de ser a melhor, aumenta a cada dia de tamanho e de glórias que só a si dizem respeito…

Sócios-fundadores remidos deste estranho mundo novo, mal vivem de lampejos!

E veem sua criatura se afastar, autônoma e virtual – esnobando o cordão umbilical e até mesmo o cabo ótico – e se voltar, irreconhecível, mal-agradecida e sem fio, contra os seus próprios criadores.

Em transformações mais rápidas do que a comunicação entre neurônios cansados, eis o que estes novos tempos acabarão perdendo e quem viver não verá:

–      Os Correios

Da antiga missão de fornecer soluções acessíveis e confiáveis para conectar pessoas, instituições e negócios, só restará a saudade do cachorro e a lembrança  do romântico correio elegante.

O e-mail e a concorrência privada têm dado impiedosos golpes aos honoráveis carteiros, que sobrevivem do lixo postal e das contas que nos entregam.

–      O cheque

O processamento de cheques custa bilhões de dólares ao sistema financeiro.

Cartões de plástico e transações on-line vão levar à eventual extinção do cheque, colocando ainda mais chagas no lazarento correio.

–      O jornal

A geração mais jovem simplesmente não lê jornal impresso. E muito menos paga pela assinatura, apesar do baixíssimo preço oferecido.

Para checar as notícias, recorre-se ao Tipnews ou outros sites menores na Internet.

Assim, o jornal fica restrito aos gatos pingados do papier mâchér, muito poucos pra cobrir os custos de operação.

–      O livro

Apesar da resistência teimosa daqueles que ainda não dispensam o livro físico e suas páginas viradas com o dedo, o final da história contada em livros é o seu próprio desaparecimento.

Pode-se navegar numa livraria virtual e até mesmo ler um capítulo pré-visualizado antes de comprar.

O preço é menos da metade do que custa o livro na prateleira, e o conteúdo – quando bom – elimina a percepção de que se folheia o Kindle Fire HD de 16 gigas.

–      A música

A indústria da música vive o seu fundo musical – e não apenas devido aos downloads ilegais.

O interesse comercial tem levado as gravadoras tradicionais e o rádio à autodestruição.

Uma grande parte das músicas vendidas nas lojas são os chamados “Itens de Catálogo”, nada mais que mais do mesmo, envolvendo sempre os mesmos artistas e seus trabalhos mais consagrados em termos de faturamento.

Isto também se aplica aos shows ao vivo, cada vez mais em flash-back envolvendo plateias leigas e dançantes.

A propósito, para mais detalhes sobre este tema, recomendo o livro de Steve Knopper: “Appetite for Self-Destruction: The Spectacular Crash of the Record Industry in the Digital Age”.

–      O telefone fixo

Esse já vai tarde, porque ninguém precisa mais do telefone fixo, o invasor de lares.

A maioria das pessoas o mantém porque sempre o teve, pagando sem usufruto.

Hoje todas as empresas de telefonia celular permitem chamadas entre usuários do mesmo provedor sem nenhum custo adicional.

–      A televisão

O faturamento das redes de televisão tem caído na razão direta do nível dos seus programas.

A grande causa é que cada vez mais tele-espectadores assistem TV e filmes transmitidos via computador, em cuja telinha também jogam e gastam o tempo que dedicavam à televisão no sofá da sala ou na cama em seus quartos.

Mesmo as TVs a cabo, monopolistas, têm abusado na cobrança e nos comerciais.

Está na hora de poder escolher o que se quer ver on-line ou pela Netflix.

–      O sentido de posse

Viver nas nuvens – quem diria? – se generalizou e virou estilo de vida!

Muitos dos bens que possuímos e usamos não mais teremos no futuro, porque estarão na “nuvem”.

Os computadores têm um disco rígido onde armazenam fotos, músicas, filmes e documentos. O software se encontra num CD ou DVD pronto pra ser reinstalado.

Contudo, a Microsoft, a Apple e o Google estão se mudando para as nuvens, o que significa que a Internet será incorporada ao sistema operacional assim que se ligue o equipamento.

Ao clicar, abre-se o objeto na nuvem Internet. Salvar alguma coisa representa deixá-la armazenada na tal nuvem.

Neste crescente mundo virtual, pode-se acessar livro, música, filme ou qualquer outro arquivo a partir de um simples dispositivo portátil, como o onipresente telefone celular.

E se “der um tilt”, como se dizia no tempo das máquinas de videogame e do pebolim?

Perde-se o álbum de fotos, o livro da estante, o disco de vinil ou a caixa de CDs e a graça?

–      O sentido de privacidade

Apesar do esperneio generalizado, a privacidade – como poucos privilegiados a conheciam – acabou.

Há câmaras nas ruas, nas casas, nos condomínios, no computador e no celular – e também via satélite – com vantagens inegáveis.

O lado ruim é que “sabem” de quem se trata e de sua posição 24 horas por dia, graças ao GPS e ao Google Street View.

Se compro algo, tal gesto informa muito mais do que somente o número do meu cartão de crédito. Revela também o meu perfil – o meu gosto e as minhas neuras. E o assédio continua…

Como profetizou Louis Armstrong em seu mundo maravilhoso, os novos bebês aprenderam muito mais do que jamais saberíamos!

Só restou a saudosa memória – pelo menos até que o Alzheimer a carregue…

 

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