Poluição dentro de casa

Todos reclamamos de poluição, mas nos descuidamos daquela que nós mesmos produzimos.

A sujeira começa dentro de casa. Tudo polui. Em nossas cidades, a pior contaminação é a do ar, cau­sada pelo tabagismo e pela poeira. A poluição dentro de casa é pior do que a poluição externa.

Ainda existe quem fume dentro de casa. Além de agravar a asma, o fumo causa câncer de pulmão.

Não adianta fumar na janela. Esta existe para o vento entrar, não para sair. Janela não é exaustor de fumaça.

Poeira é a mistura de matérias vivas e mortas dispersas pela casa. É formada por ácaros, fungos, fe­zes de insetos, restos de comida e de pele humana. Um grama de poeira tem até 20 mil ácaros. A insalubrida­de dos ambientes não afeta apenas o alérgico.

Alergia não tem idade para aparecer. Alguém nasce com predisposição genética e o péssimo am­biente doméstico acelera a contaminação.

Onde se hospedam os ácaros? Em sofás, corti­nas e aparelhos de ar-condicionado. Se o sol tem aces­so à casa, muitos dos micro-organismos não resistem. Mas há os inimigos ocultos, os quais desconhecemos: os compostos orgânicos voláteis como benzeno, to­lueno e formaldeído. São tóxicos e cancerígenos. São emitidos por móveis, equipamentos eletrônicos, tin­tas, produtos de limpeza e aerossóis.

A ventilação é inimiga da poluição. Embora se­jamos dependentes de produtos químicos, o melhor é investir no pano com água.

Quem não vive sem ar-condicionado precisa sa­ber que ele diminui a umidade do ar, resseca as muco­sas do nariz, da boca e da garganta.

Isso aumenta as chances de contrair infecções. Além disso, o aparelho de ar-condicionado espalha fungos e ácaros.

E os animais domésticos? Os pelos de cães e gatos têm proteínas que, inaladas, desencadeiam aler­gias e inflamações. A orientação é evitar que os bichos circulem dentro de casa. Mas quem resiste ao animal­zinho de estimação, que até dorme na cama com os donos?

Antes de vociferar contra a poluição externa, pense bem se a sua casa também não é uma fonte pro­dutora de sujeira e se a gente é, realmente, tão limpo e higienicamente correto como costumamos propalar.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 12/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Ontem foi o “Dia Internacional da Mulher”. Será que o feminismo não se
satisfaz com pouco ao exigir para a mulher seus “direitos”, quando deveria
lutar mais amplo, ou seja, a apropriação do projeto da mediação universal
entre a deficiência e a otimização masculina e das coisas? Por exemplo,
mesmo morando em grandes centros ou na periferia deles, um simples
acompanhamento pré-natal transforma-se em autênticos calvários. Os
resultados do descaso dentre outros, vão de abortos ao falecimento das
gestantes. Outro absurdo que acomete as mulheres é a indicação pelos médicos
de pílulas anticoncepcionais e hormônios injetáveis para contracepção. Claro
que são métodos eficazes, mas nem sempre indicados. Há mulheres que
apresentam restrições a este método, mas ao que parece, isso não vem sendo
observado. Em 2011, o índice de mortes após o parto foi de cerca de 50 por
100 mil nascidos vivos. Importante saber que o homem é espetaculoso e
retórico, desencadeia tempestades e terremotos na busca de resultados. A
mulher, não, seu estilo é passar despercebida, discreta, afirmando-se menos
no “fazer” e mais no “ser e no estar”. A mulher se impõe pela simples
presença, mais do que pela palavra ou pela ação. Outra coisa importante é
saber que foi à mulher que inventou o trabalho, pois este nunca foi o forte
do homem. O macho da espécie humana é caçador, pescador, navegador, prefere
depois a política, a ciência, a arte, os negócios. O homem tem alma
aventureira e visionária, vive sempre projetado para a distância. A mulher
foi quem primeiro cuidou da fiação, da cozinha, do trabalho no campo, da
agricultura. Aproveitando a deixa, não caberia deduzir, então, que o papel
próprio da mulher é ser a grande “mediadora” em todos os setores? Mediadora
entre a barbárie e a civilização, entre a tirania e a justiça. Será que hoje
a mulher está cumprindo sua função mediadora na História? A influência da
mulher é pouco visível precisamente porque é difusa e se acha em todo lugar.
Não é turbulenta, como a do homem, e sim estática como a da atmosfera. Há,
evidentemente, na essência feminina, uma índole atmosférica que opera
lentamente, à maneira do clima. Mães, mulheres e fêmeas constrói nossa
civilização abrindo trilhas que desde a pré-história o homem aprendeu a
seguir apoderando-se da fama, mera ilusão, elas sempre estiveram no comando.

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Geração conectada

Um dos analfabetismos que está sendo aceleradamente erradicado é o digital. Vejo pessoas de todas as idades navegando bem pela internet, desenvoltos com seus smartphones e se deliciando com a possibilidade de comunicação on line com pessoas em todas as partes do mundo.

A Revolução das TICs – Tecnologias de Informação e Comunicação vieram para ficar. O Brasil hoje está conectado. A parcela dos excluídos digitais passa a ser inexpressiva. Somos líderes em navegação e redes sociais. A cada dia melhoram os índices do acesso à rede. Em 2015, tínhamos metade do Brasil conectado. O Sudeste vencia esse campeonato, com 60% de conectividade. Hoje tais percentagens já melhoraram.

Somos o segundo no uso do Twitter, o terceiro no Facebook, também no Instagram estamos entre os primeiros. Tudo se tornará a cada dia mais veloz, porque a internet das coisas está aí e já produz frutos, principalmente no setor segurança. Mas isso é apenas o primeiro passo. Há muitos caminhos a serem percorridos e a cada dia teremos uma surpresa.

Daí a urgência de se fazer as concessionárias de telecomunicações cumprirem de maneira satisfatória a obrigação de oferecer acesso de qualidade a cada escola pública. Esse dever consta dos primeiros contratos e a previsão era que a cada seis meses, a concessionária faria uma revisão para requalificar a oferta, sempre no sentido de aprimorá-la. Ou seja: o compromisso é oferecer à escola pública serviços de idêntica qualidade aos oferecidos comercialmente.

Importante que isso seja levado a sério, porque de nada adianta prover as escolas de lousa digital, permitir que alunado e professores usem pedagogicamente o celular, se não houver possibilidade de acessar a internet.

Nossos jovens mostram uma desenvoltura singular ao se servirem desse cardápio digital. Têm familiaridade com os aplicativos, sabem procurar e encontrar respostas para tudo, fazem pequenos filmes, se divertem e estão continuamente conectados.

Que isso sirva para construir uma cidadania mais unida e mais pronta a colaborar com ideias, controle, fiscalização e acompanhamento de todas as políticas públicas. E que a mentira, a “pós-verdade”, o preconceito e a agressão venham a ser banidas desse uso virtual, pois não é disso que o Brasil precisa para se tornar a grande Nação de nossos sonhos.

Fonte: Diário de São Paulo | Data: 16/02/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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A única missão

Qual a finalidade da existência? Por que se vive? A vida tem sentido? Essa indagação pode variar, mas é uma constante em várias fases da vida e em muitas faixas etárias. Para Morris Schwartz, o mais importante na vida é aprender a dar amor e recebê-lo. Deixar o amor vir. Pensamos que não merecemos amor; pensamos que se nos dermos a ele, nos enfraqueceremos. Porém, quando se aprende a amar, aprende-se a viver.

Em qualquer idade! Envelhecer não é só decair fisicamente. É crescer. Quem encontra um sentido para a vida não deseja voltar atrás. Deseja ir em frente. Quer ver mais, quer fazer mais. Para dar sentido à vida, dedique-se a amar os outros. Dedique-se a amar os outros. Dedique-se à sua comunidade. Empenhe-se em criar alguma coisa que dê sentido e significado à sua vida. Doar-me aos outros é o que me faz sentir vivo. Faça aquilo que vem do coração. Isso não depende de estímulo externo. A chave está na própria consciência. Depende apenas de cada um de nós. Uma postura menos egoísta e menos derrotista pode ressignificar todas as fases da existência e, principalmente, a velhice. Os gregos tinham o conceito “Kairós” e hoje temos de repensar “Kairós”: o tempo vivido é o tempo da experiência. O tempo do aprendizado. Todos temos condições de nos tornarmos, em qualquer fase, um novo ser, que continua a construir sua história. Envelhecer e viver são processos indissociáveis. A alternativa a envelhecer é muito dolorosa: morrer jovem.

A velhice é uma categoria cultural. Há quem continue a pensar e a agir como se o velho fosse alguém desprovido de utilidade. Por isso, o lugar do velho é sua casa. Ou, preferivelmente, uma casa de repouso. Mas há novos paradigmas para o idoso. Avanços da neurociência, a plasticidade cerebral, a regeneração do cérebro. Conceber a velhice como período de novas aquisições. Há velhices bem-sucedidas. Basta saber que é possível fazer novos neurônios até o final da vida. É algo comprovado pela ciência. O velho que ama, na verdade, ainda não é velho. Ao contrário, o jovem que não ama, este sim, é um idoso sem remédio prescritível.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 19/01/2017
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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O que eu tenho com isso?

As rebeliões em presídio não podem ser consi­deradas um caso fortuito. Lembram mais a crônica de mortes anunciadas. Superlotar espaços que são edifi­cados para abrigar metade ou até um terço do número de ocupantes só pode acabar em carnificina. Afinal, os reclusos são seres humanos que se consideram in­justiçados, têm ressentimento e quando submetidos a disciplina rígida e a condições desfavoráveis, liberam mecanismos instintivos de violência reprimida.

A recorrência de episódios tais deveria servir para uma profunda reflexão coletiva. Quem está dis­pensado de pensar a respeito e de procurar pistas de fórmulas racionais de enfrentamento do assunto?

Ninguém está excluído desse debate. Primeiro, porque é um tema de interesse nacional e se não for adequadamente equacionado, interferirá na vida de to­dos os residentes no Brasil. Em seguida, porque a de­linquência é um fenômeno social, não é um problema exclusivo do governo. Aos poucos, fomos produzindo as condições favoráveis ao surgimento de uma crimi­nalidade precoce, cada vez mais intensa.

A experiência evidencia que o delito é praticado pelos jovens. Se conseguíssemos conscientizar os mo­ços de 15 a 24 anos de que há outros caminhos a se­guir para a consecução dos objetivos existenciais que não o crime, cerca de 80% do flagelo da delinquência estariam debelados.

Por que chegamos a esse ponto?

Há um conjunto de causas. A primeira é o de­clínio dos valores. Honestidade, probidade, seriedade, lisura e outras virtudes encontram-se muito despresti­giadas. Disseminou-se uma percepção de que não vale a pena sacrificar-se ou passar necessidades. A vida é breve e precisa ser curtida.

As instituições que auxiliavam a blindagem da criança e do jovem, protegendo-o da peste do mal, fo­ram aos poucos perdendo força. Família era um nú­cleo formador do caráter, de transmissão dos atributos caracterizadores da pessoa de bem, escola de disci­plina e de trabalho. Pais exerciam autoridade e, infe­lizmente, o conceito passou a significar autoritarismo. Corrigir passou a representar opressão. O Brasil edi­tou a “lei da palmada”, consequência de se encarar a repreensão como intolerável forma de traumatismo do ser educando.

A Igreja – seja qual for a confissão religiosa – flexibilizou-se para não ser de todo relegada. Acon­teceu no mundo inteiro. É uma tristeza verificar na Europa Continental que inúmeros templos, repositó­rios arquitetônicos e históricos que acolheram emo­cionantes manifestações de fé, hoje servem a outras finalidades. Foram transformadas em boates, bares, casas de comércio, quando não mereceram destino menos nobre.

A escola foi perdendo prestígio. Não acompa­nhou a profunda mutação dos costumes e foi de lon­ge superada pelo avanço tecnológico. Vivencia-se a quarta ou quinta Revolução Industrial e a sala de aula continua, em tese, com o mesmo design.

Qualquer modificação do sistema encontra óbi­ces, naturais quando se considera a força da inércia, mas também ditados por interesses setoriais, nem sempre vinculados ao bem comum.

A constatação é cruel: a sociedade está enferma. Encarcera o infrator jovem que ela mesma produziu e descumpre a obrigação de ressocializá-lo para que sua reinserção no meio social se faça de maneira tranquila.

Não chega a um acordo sobre o que fazer com essa população carcerária que só cresce. Construir mais presídios? Continuar a sustentar esse equipa­mento em que cada unidade onera o orçamento pú­blico mais do que o dobro do custo de uma escola de qualidade?

A cidadania está com esse desafio em seu colo: o que fazer com a questão carcerária? Chegar-se-á a um consenso neste momento em que a percepção ge­neralizada é a de que só existe um consenso no Brasil: a mais absoluta falta de consenso?

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 13/01/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Sua vocação: ser feliz

A vida é muito breve. E frágil. É uma corrida cujo termo final é a morte. Ela chega para todos. Às vezes avisa. Muitas outras vezes não. E se o encontro com ela é inevitável, o que fazer nesse intervalo entre o nascimento e a partida?

A vocação humana é ser feliz. A despeito de to­das as dificuldades. Estas existem e não por outra ra­zão já se chamou a vida de “vale de lágrimas”. Mas, como diz Ignácio de Loyola Brandão, “se tiver de chorar, que seja de alegria”.

E há alegrias na vida. Contemplar a alvorada. Ouvir os pássaros. Ver as árvores florescerem, apesar dos maus tratos que todos – sem exceção – infligimos à natureza. Sentir a mão de uma criança apertar a sua, na confiança de que ao segurá-la, estará protegida.

Ouvir boa música. Ir ao teatro. Assistir a um bom filme. Ler e penetrar nas mentes alheias, pois todo livro tem o DNA de quem o escreveu, ainda que o autor queira disfarçar.

Conversar. Como é bom ouvir. Como é gostoso ter ouvidos dispostos a ouvi-lo. Abraçar. Sentir o calor humano. Inebriar-se com partículas de emoção colhi­das ao acaso. Olhar a multidão e tentar imaginar os seus sonhos, as suas expectativas, as suas esperanças e também suas decepções e frustrações.

Frustração é um componente diuturno de qual­quer jornada. Com as pessoas, aquelas nas quais con­fiamos e elas nos desiludem. Não é preciso desistir de imediato e passar a descrer da humanidade. Às vezes vale a pena insistir. Renovar propósitos. Pedir perdão. Renovar promessas, desde que nos consideremos ap­tos a cumpri-las.

Todavia, se não houver receptividade do outro, continuar a viver. De cabeça erguida e com a página virada, prontos para enfrentar novos encontros. Con­fiar Naquele que não permite que uma folha caia da árvore, nem um fio de cabelo se perca, sem que Ele esteja atento ao que ocorre neste maravilhoso univer­so, para o qual fomos predestinados com a missão de sermos agradáveis, fazermos a diferença para melhor em nosso convívio e sempre com a certeza de que so­mos irrepetíveis, únicos, detentores de uma filiação divina e vocacionados a vivermos aquilo que pode ser traduzido pela humana felicidade.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 18/12/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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A glória em vida

Há pouco o Príncipe dos Poetas Brasileiros, Paulo Bomfim, completou seus noventa anos. Bem comemorados, por sinal. Houve outorga da medalha com seu nome no Tribunal de Justiça, bolo na Academia Paulista de Letras, onde reina desde 1963 e uma homenagem no CIEE – Centro de Integração Empresa Escola.

Aqui foi lançado o livro “Paulo Bomfim – Porta-Retratos”, uma fotobiografia elaborada por Di Bonetti com “orelha” de Celso Lafer, prefácio de Luiz Gonzaga Bertelli e inúmeras fotos, entremeadas de alguns textos. Contempla-se a infância e mocidade do poeta, os laços de família, as mídias, eventos e homenagens, sua participação na Academia Paulista de Letras, o poeta e a poesia, o patriota, o Tribunal de Justiça, amizade e convivência e sua poesia musicada.

Inúmeras fotos e, dentre elas, duas me fizeram lembrar de minha cidade quando eu era adolescente. Foi um lançamento de livro de Paulo Bomfim no Clube Jundiaiense, promovido por Mariazinha Congílio. Ela foi a mulher que mais projetou Jundiaí, investindo numa promoção espontânea e sem qualquer apoio oficial. Pois em 1962, ela convidou Paulo para autografar um livro em nossa cidade. São dessa noite as fotos que Di Bonetti recolheu para a página 173 do livro iconográfico de celebração de seus noventa anos.

São duas fotos. A primeira tem o poeta a autografar um livro, apoiando-se sobre uma mesa disposta à frente do painel de Diógenes Paes à entrada da sede central do Clube. Ainda estará lá? A seu lado todas saudosas figuras jundiaienses: Nahim Pedro Kachan, a querida Chãins Miranda Duarte, os poetas Fábio Rodrigues Mendes e Judith Arruda Carretta, a primeira-dama Liliana Paschoal Venchiarutti e Mariazinha Congílio. Na segunda foto aparecem Jurandyr de Souza Lima, o “Juranda”, Maria de Lourdes Paes, a “Juquita” e novamente Chãins Miranda Duarte.

Vultos queridos, que muito fizeram por Jundiaí e de quem todos temos saudades. Naquela noite, um jovem com dezessete anos, que se iniciava na imprensa local, mereceu do poeta uma dedicatória carinhosa: “Ao meu confrade Renato Nalini, o abraço de Paulo Bomfim”.

Que bom tê-lo conosco lúcido e produtivo, empreendedor e cada dia mais poético, legendário Paulo Bomfim. Você merece esta glória quente e sincera, a glória que vale, porque entregue em pleno vigor da existência.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 03/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Você tem dor nas costas?

A dor nas costas é a maior causa de afastamento do trabalho no Brasil. 83,5 mil licenças em 2015, segundo o INSS. Ou seja: o equivalente a 228 afastamentos por dia. Em 2016 os números subiram: até março, foram 24.247 pessoas afastadas, média de 286 licenças por dia. Aumento de 25% em relação a 2015.

O estado de São Paulo representa 20% desse total, com 16.766 casos no ano passado. A má notícia é que esse número tende a aumentar, se não cuidarmos de algo que parece não preocupar as famílias. Estamos fazendo as crianças carregarem em suas mochilas escolares, mais do que 25% do próprio peso. Isso significa o comprometimento da coluna vertebral de adultos daqui a 20 anos.

Uma epidemia de dor nas costas e outras patologias, pois ninguém pode prever a consequência de concausas conforme a heterogeneidade dos organismos. É por esse motivo que precisamos repensar no conteúdo da mochila, ao mesmo tempo em que revisamos o conteúdo dos currículos escolares. No Ensino Médio, treze disciplinas obrigam o alunado a carregar os respectivos livros e, além do material didático e de garrafas com a bebida preferida, há evidente sobrecarga.

Além de reduzir o número de disciplinas, flexibilizando o currículo e abrindo espaço para o lúdico, para o intuitivo, para a relevantíssima parcela socioemocional da criança e jovem, precisamos investir rapidamente na utilização das tecnologias de informação e comunicação. A juventude já nasceu antenada, com chip em sua circuitaria neuronal que é essencialmente digital. Não encontra interesse na nossa circuitaria analógica.

O smartphone, o tablet e todas as outras bugigangas eletrônicas precisam ser utilizadas para finalidade pedagógica. Certamente, com evidente maior aproveitamento no aprendizado. Apenas por curiosidade, quais as outras causas do absenteísmo no trabalho?

73.113 fraturas na perna, 54.249 fraturas de punho e mão, 52.598 outros transtornos de discos intervertebrais, 48.635 fraturas do antebraço, 47.699 leiomioma do útero, 44.487 fraturas do pé, 43.091 episódios depressivos, 42.070 lesões do ombro e 39.916 hérnias inguinais. Vamos cuidar mais de nossa saúde e também evitar acidentes?

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 20/10/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

Será que o feminismo não se satisfaz com pouco ao exigir para a mulher seus
“direitos”, quando deveria lutar mais amplo, ou seja, a apropriação do
projeto da mediação universal entre a deficiência e a otimização masculina
das coisas? Por exemplo, mesmo morando em grandes centros ou na periferia
deles, um simples acompanhamento pré-natal transforma-se em autênticos
calvários. Os resultados do descaso dentre outros, vão de abortos ao
falecimento das gestantes. No País em que o próprio Ministério da Saúde
classifica como inaceitáveis os índices de morte após o parto, mulheres
muitas vezes têm de viajar precariamente 60 kilômetros para fazer uma
mamografia ou esperar meses até conseguir o diagnóstico de um exame de
câncer de colo do útero. Outro absurdo que acomete as mulheres é a indicação
pelos médicos de pílulas anticoncepcionais e hormônios injetáveis para
contracepção. Claro que são métodos eficazes, mas nem sempre indicados. Há
mulheres que apresentam restrições a este método, mas ao que parece, isso
não vem sendo observado. Em 2014, o índice de mortes após o parto foi de
cerca de 52 por 100 mil nascidos vivos. Importante saber que o homem é
espetaculoso e retórico, desencadeia tempestades e terremotos na busca de
resultados. A mulher, não, seu estilo é passar despercebida, discreta,
afirmando-se menos no “fazer” e mais no “ser e no estar”. Outra coisa
importante é saber que foi à mulher que inventou o trabalho, pois este
nunca foi o forte do homem. O macho da espécie humana é caçador, pescador,
navegador, prefere depois a política, a ciência, a arte, os negócios. A
mulher foi quem primeiro cuidou da fiação, da cozinha, do trabalho no campo,
da agricultura. Aproveitando a deixa, não caberia deduzir, então, que o
papel próprio da mulher é ser a grande “mediadora” em todos os setores?
Mediadora entre a barbárie e a civilização, entre a tirania e a justiça. A
mulher está cumprindo sua função mediadora na história? A mulher não é
turbulenta como o homem, e sim estática como a da atmosfera. Há,
evidentemente, na essência feminina, uma índole atmosférica que opera
lentamente, à maneira do clima. Mães, mulheres e fêmeas constrói nossa
civilização abrindo trilhas que desde a pré-história o homem aprendeu a
seguir apoderando-se da fama, mera ilusão, elas sempre estiveram no comando.

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A maricotinha da escola pública

A 24ª Bienal do Livro de São Paulo já produziu um efeito magnífico para a selecionada plateia de formadores de opinião que participou da solenidade de abertura. Foi o show de Maria Bethânia, cada vez melhor e mais inspiradora, a declamar, a cantar e a provocar a reflexão dos extasiados ouvintes de sua performance. Sua voz faz com que tudo revista encanto novo. Canções antigas adquirem colorido inesperado. Apelos se impregnam de emotividade mais intensa. Que privilégio participar desse momento mágico.

Para além da beleza auditiva, permanece a responsabilidade de refletir sobre o que Bethânia ali nos legou. A mensagem de aluna da escola pública, que se viu nesse universo despertada para a transformação que só a palavra é capaz de propiciar a quem se propuser ouvi-la. Quem se detém a encarar a palavra, é por ela inevitavelmente conquistado. Conquista definitiva, de cumplicidade que só se apura com o tempo. A paixão pela palavra, qual fonte copiosa e infinita, continua a jorrar pela vida afora o precioso milagre do encantamento.

Bethânia se lembrou com carinho de sua primeira professora. Pronunciou com respeito o seu nome. O nome reverenciado daquela que incutiu na artista o amor pelos poetas populares, cujos nomes também deveriam ser decorados – guardados no coração – e proclamados com veneração por todos os alunos, em todas as escolas, todos os dias.

A escola pública produziu maravilhas e continua a produzi-las. No imenso universo das redes oficiais deste nosso Brasil tão heterogêneo e tão complexo, é a professora do estado ou do município a mais heroica das profissionais. A despeito das dificuldades, das incompreensões, da ingratidão e da falta de reconhecimento, quantas delas continuam a propagar o conhecimento, a difundir a sabedoria, a entusiasmar o aluno a desvendar o mundo e a persistir na busca do crescimento interior, que não tem termo definitivo, mas tem a duração de cada existência.

Que bom seria que egressos da escola pública alardeassem, como o faz Maria Bethânia, o legítimo orgulho dessa proveniência que é a mais comum entre os brasileiros e que precisa tanto do reconhecimento, do respeito e do carinho de quem ainda considera a educação o maior desafio e a maior esperança da gente brasileira.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 01/09/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail:imprensanalini@gmail.com.

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