Como recrutar o bom senso?

Uma das questões tormentosas para todas as democracias é a forma de recrutamento de juízes, promotores de Justiça, defensores públicos e demais carreiras jurídicas. Em tese, o modelo brasileiro é incensurável.

Nossos juízes, promotores, defensores públicos, procuradores, delegados de polícia e de legatários dos serviços extrajudiciais – os antigos cartórios – são selecionados por concurso de provas e títulos. Fórmula que alia o aspecto democrático – todos podem concorrer, desde que bacharéis em Direito – e a feição meritocrática – só os mais capazes serão aprovados.

Todavia, persiste o tema da legitimidade, muito debatido em outros países, a merecer uma resposta consistente e convincente. Os demais poderes têm seus integrantes eleitos. Submetem-se ao escrutínio popular. Isso é próprio ao regime democrático. Tanto que os Estados Unidos têm vários estados que elegem seus juízes, para responder a esse déficit de legitimidade muito comentado na doutrina.

Aqui, o concurso público de provas e títulos não atende a esse requisito de escolha popular e merece críticas. A resposta mais comum é a de que o juiz atende ao princípio da legitimidade mediante sólida fundamentação das decisões.

Como profere suas deliberações por escrito ou oralmente, mas com toda a publicidade e transparência, tal procedimento adquire a legitimidade que vem do consentimento da população à qual está preordenado a servir. Superada a questão da legitimidade, outra ordem de reflexões ainda não mereceu definitiva solução. O concurso público escolhe, na verdade, os mais capazes?

É algo irrespondível. Tem sido assim e as carreiras públicas não padecem de falta de preparo técnico. Isso é suficiente para o excelente desempenho da função estatal?

Ocorre que a seleção de profissionais das carreiras jurídicas ainda ostenta um déficit sobre o qual existe relativo consenso: avalia-se a capacidade de memorização, na expectativa de que o candidato decore todo o acervo legislativo, doutrinário e jurisprudencial produzido a respeito do universo jurídico.

Nem sempre isso equivale a equilíbrio, sensibilidade, capacidade de trabalho, compreensão, solidariedade, humanismo e, principalmente, bom senso. Mas quem é que pensa em alterar esse quadro?

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 19/11/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

Compartilhe

Juízo, a Terra é frágil!

Talvez por ser neto de imigrante, que deixou a Itália por falta de perspectivas e por  carência de terras, tenho a ecologia no meu DNA. Sou ambientalista convicto, procuro proteger a natureza na limitação de minhas possibilidades, mas nunca cessei na pregação de alerta para que o maltrato se reduza.

Como um dos idealizadoras e primeiros integrantes da Câmara Especial do Meio Ambiente, depois batizada Câmara Reservada ao Meio Ambiente, sempre fui contra
as queimadas de palha de cana-de-açúcar. Nunca me convenci de que essa praxe fosse inofensiva. Estive em locais afetados e o cenário é aterrador. Sustentei com paixão a vedação de tal costume, repeli o argumento de que sempre foi assim, desde a “coivara” dos índios e perdi muitas batalhas. Indignado ao constatar que doutrinadores do ambiente, quando contratados a defender os incendiários, renegavam suas posições e encontravam elementos para afirmar que aquele era um caso peculiar.

Indignei-me quando em acórdão o relator chegou a se utilizar de metáfora de discutível gosto: a fuligem da queimada representava “as borboletas do progresso” para o agronegócio… Enfim, a verdade é poliédrica e cada qual consegue enxergar na mesma questão um foco nem sempre perscrutável pelo olhar do outro.

Reconheço que a cana-de-açúcar está no Brasil desde 1530, trazida por Martin Afonso de Souza e que hoje o Brasil é o maior produtor do mundo e o primeiro fornecedor de açúcar, com 22% da oferta mundial. É o segundo em etanol, com 25% do mercado. A previsão da safra 2017/2018 é de 585 milhões de toneladas, apenas na região Centro-Sul, de acordo com informações da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar – Unica. O parque industrial conta com 382 usinas, sendo 302 situadas na região Centro-Sul, e gera 1 milhão de empregos diretos em 30% dos municípios brasileiros.

A biomassa ocupa a terceira posição na matriz elétrica do Brasil, com 11.189 MW e de acordo com o Plano Decenal de Energia – PDE 2024, do Ministério de Minas e Energia, o potencial técnico de geração anual para a rede pela biomassa de cana pode alcançar duas usinas de Itaipu, com 165 TWh/ano até 2024, ou seja, 24% do consumo nacional.

Sei também que da cana tudo se aproveita: etanol, açúcar, energia, cachaça, caldo de cana, rapadura. Os subprodutos também são reutilizados, como a palha da cana, usada na técnica do plantio direto, que protege o solo e aumenta a produtividade do canavial. Mas também produz energia elétrica, papel higiênico, bioplástico e outros itens. A vinhaça é destinada à adubação e fertirrigação, pois tem concentração de nutrientes.

Todavia, não penso que seja saudável eliminar a policultura, vocação natural do Estado de São Paulo, para transformar nosso Estado em imenso canavial. Apenas separado por presídios, o que me levou a escrever há alguns anos, o artigo “Cana & Cana”, para evidenciar uma realidade preocupante.

Espero que o agronegócio tenha juízo para não deixar de respeitar a natureza, tão pródiga e tão maltratada. O mundo emite sinais eloquentes de fratura ambiental. Não é impossível manter a canavicultura e a reserva florestal. Esta é um patrimônio que não merece destruição.

Espero que a preocupação ecológica mereça cada vez maior espaço na categoria e que as notícias veiculadas no jornal do Engenheiro Agrônomo, sob o título “Santa Cana – Do Passado Colonial ao Futuro Sustentável” sejam sinal de fortalecimento dessa consciência. Pois afirma-se que 97,5% da área de cana de São Paulo está livre de queimada. As emissões de gases de efeito estufa evitadas já equivalem ao que teria sido emitido por cerca de 162 mil ônibus circulando durante um ano. Enquanto na safra de 2007/2008 havia 753 colhedoras, hoje o setor sucroenergético possui 3.747 colhedoras. 60% das usinas signatárias do Protocolo Agroambiental possuem programas de restauração florestal de seus fornecedores de cana.

É saudável que a nova geração de profissionais, com especialização adquirida nos mais modernos centros de formação, tenham noção de que a Terra é frágil e de que nada adianta exauri-la com uma agricultura agressiva, para amanhã não poder dela extrair riqueza, sobrevivência e vida digna.

Fonte: Correio Popular | Data: 17/11/2017

Compartilhe

Poluição dentro de casa

Todos reclamamos de poluição, mas nos descuidamos daquela que nós mesmos produzimos.

A sujeira começa dentro de casa. Tudo polui. Em nossas cidades, a pior contaminação é a do ar, cau­sada pelo tabagismo e pela poeira. A poluição dentro de casa é pior do que a poluição externa.

Ainda existe quem fume dentro de casa. Além de agravar a asma, o fumo causa câncer de pulmão.

Não adianta fumar na janela. Esta existe para o vento entrar, não para sair. Janela não é exaustor de fumaça.

Poeira é a mistura de matérias vivas e mortas dispersas pela casa. É formada por ácaros, fungos, fe­zes de insetos, restos de comida e de pele humana. Um grama de poeira tem até 20 mil ácaros. A insalubrida­de dos ambientes não afeta apenas o alérgico.

Alergia não tem idade para aparecer. Alguém nasce com predisposição genética e o péssimo am­biente doméstico acelera a contaminação.

Onde se hospedam os ácaros? Em sofás, corti­nas e aparelhos de ar-condicionado. Se o sol tem aces­so à casa, muitos dos micro-organismos não resistem. Mas há os inimigos ocultos, os quais desconhecemos: os compostos orgânicos voláteis como benzeno, to­lueno e formaldeído. São tóxicos e cancerígenos. São emitidos por móveis, equipamentos eletrônicos, tin­tas, produtos de limpeza e aerossóis.

A ventilação é inimiga da poluição. Embora se­jamos dependentes de produtos químicos, o melhor é investir no pano com água.

Quem não vive sem ar-condicionado precisa sa­ber que ele diminui a umidade do ar, resseca as muco­sas do nariz, da boca e da garganta.

Isso aumenta as chances de contrair infecções. Além disso, o aparelho de ar-condicionado espalha fungos e ácaros.

E os animais domésticos? Os pelos de cães e gatos têm proteínas que, inaladas, desencadeiam aler­gias e inflamações. A orientação é evitar que os bichos circulem dentro de casa. Mas quem resiste ao animal­zinho de estimação, que até dorme na cama com os donos?

Antes de vociferar contra a poluição externa, pense bem se a sua casa também não é uma fonte pro­dutora de sujeira e se a gente é, realmente, tão limpo e higienicamente correto como costumamos propalar.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 12/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

Compartilhe

Geração conectada

Um dos analfabetismos que está sendo aceleradamente erradicado é o digital. Vejo pessoas de todas as idades navegando bem pela internet, desenvoltos com seus smartphones e se deliciando com a possibilidade de comunicação on line com pessoas em todas as partes do mundo.

A Revolução das TICs – Tecnologias de Informação e Comunicação vieram para ficar. O Brasil hoje está conectado. A parcela dos excluídos digitais passa a ser inexpressiva. Somos líderes em navegação e redes sociais. A cada dia melhoram os índices do acesso à rede. Em 2015, tínhamos metade do Brasil conectado. O Sudeste vencia esse campeonato, com 60% de conectividade. Hoje tais percentagens já melhoraram.

Somos o segundo no uso do Twitter, o terceiro no Facebook, também no Instagram estamos entre os primeiros. Tudo se tornará a cada dia mais veloz, porque a internet das coisas está aí e já produz frutos, principalmente no setor segurança. Mas isso é apenas o primeiro passo. Há muitos caminhos a serem percorridos e a cada dia teremos uma surpresa.

Daí a urgência de se fazer as concessionárias de telecomunicações cumprirem de maneira satisfatória a obrigação de oferecer acesso de qualidade a cada escola pública. Esse dever consta dos primeiros contratos e a previsão era que a cada seis meses, a concessionária faria uma revisão para requalificar a oferta, sempre no sentido de aprimorá-la. Ou seja: o compromisso é oferecer à escola pública serviços de idêntica qualidade aos oferecidos comercialmente.

Importante que isso seja levado a sério, porque de nada adianta prover as escolas de lousa digital, permitir que alunado e professores usem pedagogicamente o celular, se não houver possibilidade de acessar a internet.

Nossos jovens mostram uma desenvoltura singular ao se servirem desse cardápio digital. Têm familiaridade com os aplicativos, sabem procurar e encontrar respostas para tudo, fazem pequenos filmes, se divertem e estão continuamente conectados.

Que isso sirva para construir uma cidadania mais unida e mais pronta a colaborar com ideias, controle, fiscalização e acompanhamento de todas as políticas públicas. E que a mentira, a “pós-verdade”, o preconceito e a agressão venham a ser banidas desse uso virtual, pois não é disso que o Brasil precisa para se tornar a grande Nação de nossos sonhos.

Fonte: Diário de São Paulo | Data: 16/02/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

Compartilhe

A única missão

Qual a finalidade da existência? Por que se vive? A vida tem sentido? Essa indagação pode variar, mas é uma constante em várias fases da vida e em muitas faixas etárias. Para Morris Schwartz, o mais importante na vida é aprender a dar amor e recebê-lo. Deixar o amor vir. Pensamos que não merecemos amor; pensamos que se nos dermos a ele, nos enfraqueceremos. Porém, quando se aprende a amar, aprende-se a viver.

Em qualquer idade! Envelhecer não é só decair fisicamente. É crescer. Quem encontra um sentido para a vida não deseja voltar atrás. Deseja ir em frente. Quer ver mais, quer fazer mais. Para dar sentido à vida, dedique-se a amar os outros. Dedique-se a amar os outros. Dedique-se à sua comunidade. Empenhe-se em criar alguma coisa que dê sentido e significado à sua vida. Doar-me aos outros é o que me faz sentir vivo. Faça aquilo que vem do coração. Isso não depende de estímulo externo. A chave está na própria consciência. Depende apenas de cada um de nós. Uma postura menos egoísta e menos derrotista pode ressignificar todas as fases da existência e, principalmente, a velhice. Os gregos tinham o conceito “Kairós” e hoje temos de repensar “Kairós”: o tempo vivido é o tempo da experiência. O tempo do aprendizado. Todos temos condições de nos tornarmos, em qualquer fase, um novo ser, que continua a construir sua história. Envelhecer e viver são processos indissociáveis. A alternativa a envelhecer é muito dolorosa: morrer jovem.

A velhice é uma categoria cultural. Há quem continue a pensar e a agir como se o velho fosse alguém desprovido de utilidade. Por isso, o lugar do velho é sua casa. Ou, preferivelmente, uma casa de repouso. Mas há novos paradigmas para o idoso. Avanços da neurociência, a plasticidade cerebral, a regeneração do cérebro. Conceber a velhice como período de novas aquisições. Há velhices bem-sucedidas. Basta saber que é possível fazer novos neurônios até o final da vida. É algo comprovado pela ciência. O velho que ama, na verdade, ainda não é velho. Ao contrário, o jovem que não ama, este sim, é um idoso sem remédio prescritível.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 19/01/2017
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

Compartilhe

O que eu tenho com isso?

As rebeliões em presídio não podem ser consi­deradas um caso fortuito. Lembram mais a crônica de mortes anunciadas. Superlotar espaços que são edifi­cados para abrigar metade ou até um terço do número de ocupantes só pode acabar em carnificina. Afinal, os reclusos são seres humanos que se consideram in­justiçados, têm ressentimento e quando submetidos a disciplina rígida e a condições desfavoráveis, liberam mecanismos instintivos de violência reprimida.

A recorrência de episódios tais deveria servir para uma profunda reflexão coletiva. Quem está dis­pensado de pensar a respeito e de procurar pistas de fórmulas racionais de enfrentamento do assunto?

Ninguém está excluído desse debate. Primeiro, porque é um tema de interesse nacional e se não for adequadamente equacionado, interferirá na vida de to­dos os residentes no Brasil. Em seguida, porque a de­linquência é um fenômeno social, não é um problema exclusivo do governo. Aos poucos, fomos produzindo as condições favoráveis ao surgimento de uma crimi­nalidade precoce, cada vez mais intensa.

A experiência evidencia que o delito é praticado pelos jovens. Se conseguíssemos conscientizar os mo­ços de 15 a 24 anos de que há outros caminhos a se­guir para a consecução dos objetivos existenciais que não o crime, cerca de 80% do flagelo da delinquência estariam debelados.

Por que chegamos a esse ponto?

Há um conjunto de causas. A primeira é o de­clínio dos valores. Honestidade, probidade, seriedade, lisura e outras virtudes encontram-se muito despresti­giadas. Disseminou-se uma percepção de que não vale a pena sacrificar-se ou passar necessidades. A vida é breve e precisa ser curtida.

As instituições que auxiliavam a blindagem da criança e do jovem, protegendo-o da peste do mal, fo­ram aos poucos perdendo força. Família era um nú­cleo formador do caráter, de transmissão dos atributos caracterizadores da pessoa de bem, escola de disci­plina e de trabalho. Pais exerciam autoridade e, infe­lizmente, o conceito passou a significar autoritarismo. Corrigir passou a representar opressão. O Brasil edi­tou a “lei da palmada”, consequência de se encarar a repreensão como intolerável forma de traumatismo do ser educando.

A Igreja – seja qual for a confissão religiosa – flexibilizou-se para não ser de todo relegada. Acon­teceu no mundo inteiro. É uma tristeza verificar na Europa Continental que inúmeros templos, repositó­rios arquitetônicos e históricos que acolheram emo­cionantes manifestações de fé, hoje servem a outras finalidades. Foram transformadas em boates, bares, casas de comércio, quando não mereceram destino menos nobre.

A escola foi perdendo prestígio. Não acompa­nhou a profunda mutação dos costumes e foi de lon­ge superada pelo avanço tecnológico. Vivencia-se a quarta ou quinta Revolução Industrial e a sala de aula continua, em tese, com o mesmo design.

Qualquer modificação do sistema encontra óbi­ces, naturais quando se considera a força da inércia, mas também ditados por interesses setoriais, nem sempre vinculados ao bem comum.

A constatação é cruel: a sociedade está enferma. Encarcera o infrator jovem que ela mesma produziu e descumpre a obrigação de ressocializá-lo para que sua reinserção no meio social se faça de maneira tranquila.

Não chega a um acordo sobre o que fazer com essa população carcerária que só cresce. Construir mais presídios? Continuar a sustentar esse equipa­mento em que cada unidade onera o orçamento pú­blico mais do que o dobro do custo de uma escola de qualidade?

A cidadania está com esse desafio em seu colo: o que fazer com a questão carcerária? Chegar-se-á a um consenso neste momento em que a percepção ge­neralizada é a de que só existe um consenso no Brasil: a mais absoluta falta de consenso?

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 13/01/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

Compartilhe

Sua vocação: ser feliz

A vida é muito breve. E frágil. É uma corrida cujo termo final é a morte. Ela chega para todos. Às vezes avisa. Muitas outras vezes não. E se o encontro com ela é inevitável, o que fazer nesse intervalo entre o nascimento e a partida?

A vocação humana é ser feliz. A despeito de to­das as dificuldades. Estas existem e não por outra ra­zão já se chamou a vida de “vale de lágrimas”. Mas, como diz Ignácio de Loyola Brandão, “se tiver de chorar, que seja de alegria”.

E há alegrias na vida. Contemplar a alvorada. Ouvir os pássaros. Ver as árvores florescerem, apesar dos maus tratos que todos – sem exceção – infligimos à natureza. Sentir a mão de uma criança apertar a sua, na confiança de que ao segurá-la, estará protegida.

Ouvir boa música. Ir ao teatro. Assistir a um bom filme. Ler e penetrar nas mentes alheias, pois todo livro tem o DNA de quem o escreveu, ainda que o autor queira disfarçar.

Conversar. Como é bom ouvir. Como é gostoso ter ouvidos dispostos a ouvi-lo. Abraçar. Sentir o calor humano. Inebriar-se com partículas de emoção colhi­das ao acaso. Olhar a multidão e tentar imaginar os seus sonhos, as suas expectativas, as suas esperanças e também suas decepções e frustrações.

Frustração é um componente diuturno de qual­quer jornada. Com as pessoas, aquelas nas quais con­fiamos e elas nos desiludem. Não é preciso desistir de imediato e passar a descrer da humanidade. Às vezes vale a pena insistir. Renovar propósitos. Pedir perdão. Renovar promessas, desde que nos consideremos ap­tos a cumpri-las.

Todavia, se não houver receptividade do outro, continuar a viver. De cabeça erguida e com a página virada, prontos para enfrentar novos encontros. Con­fiar Naquele que não permite que uma folha caia da árvore, nem um fio de cabelo se perca, sem que Ele esteja atento ao que ocorre neste maravilhoso univer­so, para o qual fomos predestinados com a missão de sermos agradáveis, fazermos a diferença para melhor em nosso convívio e sempre com a certeza de que so­mos irrepetíveis, únicos, detentores de uma filiação divina e vocacionados a vivermos aquilo que pode ser traduzido pela humana felicidade.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 18/12/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

Compartilhe

Estados subjugados

A Federação Brasileira é formada por um con­junto de entes: União, Estados Federados, Municípios e Distrito Federal. Em tese, não há hierarquia entre tais entidades, mas uma distribuição constitucional de competências. Só que a Federação brasileira, por haver começado sem a plena autonomia das antigas Provín­cias, ao contrário do que ocorreu na América do Norte, sempre foi assimétrica. Embora se diga preponderante um “Federalismo de cooperação”, o que se verifica na realidade é a prevalência da União, que predomina em força e poder e subjuga os Estados membros, todos tra­tados de maneira draconiana.

A atual situação política, econômica e financeira teve por cenário principal o Planalto. Foi na União Fe­deral que ocorreram os fatos conducentes de uma Re­pública em ascensão ao patamar atual. À mercê de tal situação, os estados encontram-se à míngua e sofrem os cruéis efeitos da recessão, da estagnação, da crescente e brutal queda de arrecadação.

São Paulo, por ser o mais industrializado, é o que mais sofre as agruras da crise. Como providência de verdadeira UTI, é urgente que se repense o cálculo da dívida que foi negociada no final da década de noventa em detrimento do interesse da população.

O governo central é que estabelece as políticas econômica e monetária. Foram elas as responsáveis pelo estado calamitoso em que se encontram as econo­mias federadas. O Plano Real, a Lei Kandir e a restrição ao crédito causaram o desastre estadual, agravado com a elevação da taxa Selic a níveis absurdos.

O estrangulamento das finanças estaduais obrigou os Estados a se submeterem a contratos leoninos, abusi­vos, draconianos, desequilibrando a equação financeira e, por isso mesmo, viciados de inconstitucionalidade. O tratamento que a União concede à iniciativa privada, seja pelo BNDES, seja pelo PROER, é completamen­te diverso daquele exigido aos Estados. Enquanto no PROES, que penaliza os Estados, a União faz saques nas contas bancárias dos Estados inadimplentes, em re­lação ao Proer, além de descontos e vantagens conferi­das ao devedor, as contas vencidas pendem de cobrança e não há preocupação com o prazo.

A União monitora com mão de ferro as contas estaduais e lucra com o pagamento que sacrifica as uni­dades federadas, a ponto de deixá-las sem condições de honrar seus compromissos. Para exemplificar, em 2014, ela recebeu dos Estados, a título de prestações, 31 bi­lhões de reais e gastou com a dívida interna contraída para financiar os programas da Lei 9.496/97 e do PRO­ES, apenas 25 milhões de reais.

Para que se tenha uma ideia do quadro que pena­liza a população que não vive na União, mas mora no Município e este se situa no Estado, em janeiro de 1999 os Estados deviam 93 bilhões de reais. Desde então e até 2014, pagaram 246 bilhões e em dezembro de 2014 ainda deviam 422 bilhões.

Algo está errado se entre janeiro de 1999 e de­zembro de 2015, os contratos menos onerosos, que estabeleceram remuneração baseada no IGP/DI, mais juros de 6,17 % ao ano, sofreram variação de 1.047%, enquanto a inflação foi de 208%.

O depauperamento dos Estados é flagrante. Em setores como a Educação, o MEC não dispõe de Rede Pública, enquanto São Paulo tem a maior do Brasil e uma das maiores e mais complexas do mundo: 5.300 escolas, 400 mil pessoas na folha de pagamento da Se­cretaria da Educação e 4 milhões de alunos.

É urgente repensar a Federação, permitindo que os Estados sobrevivam, assim como os Municípios. A drenagem dos recursos da nacionalidade para a União que só tem de coordenar a Federação, está sufocando a República, e impedindo que as políticas essenciais ao desenvolvimento do Brasil sejam obstadas em nome de uma Federação fictícia, a encobrir verdadeiro Estado Unitário, com o Executivo forte, centralizador e per­dulário.

Fonte:Correio Popular de Campinas| Data: 09/12/2016

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com

Compartilhe

A glória em vida

Há pouco o Príncipe dos Poetas Brasileiros, Paulo Bomfim, completou seus noventa anos. Bem comemorados, por sinal. Houve outorga da medalha com seu nome no Tribunal de Justiça, bolo na Academia Paulista de Letras, onde reina desde 1963 e uma homenagem no CIEE – Centro de Integração Empresa Escola.

Aqui foi lançado o livro “Paulo Bomfim – Porta-Retratos”, uma fotobiografia elaborada por Di Bonetti com “orelha” de Celso Lafer, prefácio de Luiz Gonzaga Bertelli e inúmeras fotos, entremeadas de alguns textos. Contempla-se a infância e mocidade do poeta, os laços de família, as mídias, eventos e homenagens, sua participação na Academia Paulista de Letras, o poeta e a poesia, o patriota, o Tribunal de Justiça, amizade e convivência e sua poesia musicada.

Inúmeras fotos e, dentre elas, duas me fizeram lembrar de minha cidade quando eu era adolescente. Foi um lançamento de livro de Paulo Bomfim no Clube Jundiaiense, promovido por Mariazinha Congílio. Ela foi a mulher que mais projetou Jundiaí, investindo numa promoção espontânea e sem qualquer apoio oficial. Pois em 1962, ela convidou Paulo para autografar um livro em nossa cidade. São dessa noite as fotos que Di Bonetti recolheu para a página 173 do livro iconográfico de celebração de seus noventa anos.

São duas fotos. A primeira tem o poeta a autografar um livro, apoiando-se sobre uma mesa disposta à frente do painel de Diógenes Paes à entrada da sede central do Clube. Ainda estará lá? A seu lado todas saudosas figuras jundiaienses: Nahim Pedro Kachan, a querida Chãins Miranda Duarte, os poetas Fábio Rodrigues Mendes e Judith Arruda Carretta, a primeira-dama Liliana Paschoal Venchiarutti e Mariazinha Congílio. Na segunda foto aparecem Jurandyr de Souza Lima, o “Juranda”, Maria de Lourdes Paes, a “Juquita” e novamente Chãins Miranda Duarte.

Vultos queridos, que muito fizeram por Jundiaí e de quem todos temos saudades. Naquela noite, um jovem com dezessete anos, que se iniciava na imprensa local, mereceu do poeta uma dedicatória carinhosa: “Ao meu confrade Renato Nalini, o abraço de Paulo Bomfim”.

Que bom tê-lo conosco lúcido e produtivo, empreendedor e cada dia mais poético, legendário Paulo Bomfim. Você merece esta glória quente e sincera, a glória que vale, porque entregue em pleno vigor da existência.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 03/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

Compartilhe

Você tem dor nas costas?

A dor nas costas é a maior causa de afastamento do trabalho no Brasil. 83,5 mil licenças em 2015, segundo o INSS. Ou seja: o equivalente a 228 afastamentos por dia. Em 2016 os números subiram: até março, foram 24.247 pessoas afastadas, média de 286 licenças por dia. Aumento de 25% em relação a 2015.

O estado de São Paulo representa 20% desse total, com 16.766 casos no ano passado. A má notícia é que esse número tende a aumentar, se não cuidarmos de algo que parece não preocupar as famílias. Estamos fazendo as crianças carregarem em suas mochilas escolares, mais do que 25% do próprio peso. Isso significa o comprometimento da coluna vertebral de adultos daqui a 20 anos.

Uma epidemia de dor nas costas e outras patologias, pois ninguém pode prever a consequência de concausas conforme a heterogeneidade dos organismos. É por esse motivo que precisamos repensar no conteúdo da mochila, ao mesmo tempo em que revisamos o conteúdo dos currículos escolares. No Ensino Médio, treze disciplinas obrigam o alunado a carregar os respectivos livros e, além do material didático e de garrafas com a bebida preferida, há evidente sobrecarga.

Além de reduzir o número de disciplinas, flexibilizando o currículo e abrindo espaço para o lúdico, para o intuitivo, para a relevantíssima parcela socioemocional da criança e jovem, precisamos investir rapidamente na utilização das tecnologias de informação e comunicação. A juventude já nasceu antenada, com chip em sua circuitaria neuronal que é essencialmente digital. Não encontra interesse na nossa circuitaria analógica.

O smartphone, o tablet e todas as outras bugigangas eletrônicas precisam ser utilizadas para finalidade pedagógica. Certamente, com evidente maior aproveitamento no aprendizado. Apenas por curiosidade, quais as outras causas do absenteísmo no trabalho?

73.113 fraturas na perna, 54.249 fraturas de punho e mão, 52.598 outros transtornos de discos intervertebrais, 48.635 fraturas do antebraço, 47.699 leiomioma do útero, 44.487 fraturas do pé, 43.091 episódios depressivos, 42.070 lesões do ombro e 39.916 hérnias inguinais. Vamos cuidar mais de nossa saúde e também evitar acidentes?

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 20/10/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

Compartilhe