Ainda a Torre de Babel…

Diz a lenda que a estratégia utilizada pelos deuses pra impedir a concorrência dos humanos no acesso à divindade – e, pelo entendimento, união e harmonia, de tudo serem capazes – foi tornar a sua língua incompreensível entre si.

No raciocínio das divindades, a comunicação reprimida condenaria os homens a viverem em pequenas e insignificantes tribos que se repeliriam umas às outras como o betume e a água salgada do Mar Morto.

A recente crise russa envolvendo Ucrânia e Criméia parece ser o reflexo da vez daqueles dias lendários, como têm sido desde sempre na amorfia do problema palestino; naquelas nações confinadas “numa tal de Iugoslávia” que um dia existiu; nas diferentes Irlandas; nos “bascos”, nos “curdos” e nos “ciganos” errantes de todas as raças, forçados a coexistir em todas as fronteiras – mais políticas que geográficas – do mundo…

A Ucrânia, um país de 46 milhões de habitantes, tornou-se independente da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – a antiga USSR um dia cantada pelos Beatles – no final de 1991 com base num plebiscito em que 90% da população assim o decidiu.

Ainda hoje, os ucranianos são um amontoado de mais de 15 etnias diferentes que falam “grego” entre si, especialmente do sudoeste ao sudeste da nação, áreas mais distantes da fronteira e do idioma russo.

Uma das poucas coisas que muitos ucranianos têm em comum é a noção de que seu país é um dos chamados Estados Independentes, e não mais uma daquelas antigas Repúblicas da União Soviética.

A Criméia, parte sul do território ucraniano e com uma população de pouco menos de 2,5 milhões de habitantes, é uma península que lembra uma ilha quase isolada no Mar Negro, de acesso tão fácil aos russos pelo leste quanto aos ucranianos pelo norte.

E a presença russa – civil e militar – tem sido mais intensa, talvez pelo clima mais quente e pela localização estratégica da região.

Aproveitando-se a transição de governo, anunciou-se mais um plebiscito, no qual 95% dos crimeianos decidiram no último fim de semana – aparentemente se entendendo na sua língua tártara com muito menos dialetos – que gostariam de voltar a fazer parte da velha mãe Rússia, para o bem ou para o mal.

Para o Kremlin, a anexação foi fácil e indolor…

Primeiro, porque as forças russas já estão legitimamente estacionadas na Criméia, não só com a sua Frota do Mar Negro, mas com diversas bases militares instaladas por toda a península.

Segundo, porque tal anexação era uma aspiração antiga da maioria da população, de predominância – etnica e culturalmente – russa, o que ficou evidenciado no referendo.

Terceiro, porque o governo interino em Kiev, ainda em fraca formação, não oferecia nenhum risco de qualquer reação.

A Putin, o caçador topless de tigres e quem, da Ucrânia, só simpatiza com as meninas do Femen, só restou capitalizar com a consumação da anexação pretendida pelo soberano povo da Criméia.

Afinal, o povo, ainda que use a linguagem dos sinais, é quem deve decidir sobre o seu destino, mesmo que sob os protestos eventuais da minoria inconformada e barulhenta… 

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