AGRICULTURA FAMILIAR E AGRONEGÓCIO

Dizem que manga comida com leite faz mal. Não procede. Espalhada pelo
senhor de engenho, a mentira procurava impedir o consumo de leite pelos
escravos. No interior paulista, agosto é mês do cachorro louco. Trata-se,
evidentemente, de uma crendice. Para espantar os cães raivosos as crianças
seguiam para a escola rural, a pé, apavoradas, vestindo seus uniformes do
avesso. Coisa de antigamente. No campo, na época de pouca tecnologia, a lua
definia períodos de plantio e colheita. Cortar bambu somente se permitia na
fase minguante, para não carunchar. Para vingar forte a muda de bananeira
deveria ser plantada de ponta-cabeça. Virou brincadeira de criança -“Vamos
plantar bananeira?”A maioria das crenças rurais acabou distante, perdida no
trajeto da civilização brasileira. Por mais que a ciência moderna comprove
que o eucalipto é uma árvore generosa, sua fama de má continua assombrando.
Dizem que espanta a chuva, seca o solo, que nada nasce ao seu redor nem
vinga na terra por ela outrora ocupada. Nada disso é verdade, mais continua
a conversa fiada. Os estudos florestais, todavia, comprovam que o consumo de
água pela árvore não difere muito do consumo de outras espécies florestais.
O mesmo se dá na oposição entre agricultura familiar e os agros-negócios.
Argumenta-se que os produtores familiares, geram empregos e protegem o
mercado interno; os grandes empresários rurais são anti-sociais e visam
apenas os dólares da exportação. A falácia imputa virtude aos pequenos e
vício aos grandes. Familiares são do bem, patronais, do mal. Produção rural
familiar tem que ver com gestão, não com tamanho, e agro-negócio exige
vinculação ao mercado. Quando se analisam as estatísticas agrárias,
verifica-se que os pequenos agricultores são importantes na produção de
alimentos, como o feijão, mandioca e frutas. O cereal que segue para
abastecer as metrópoles, todavia, advém do agro-negócio, boa tecnologia,
gestão empresarial. Milhares de produtores do Paraná, organizados em
cooperativas, produzem soja para exportação. Fruticultores paulistas,
altamente tecnificados, dão show de competência. Todos são familiares e,
simultaneamente, expoentes do agro-negócio. Segregar o agricultor familiar,
à semelhança da crendice do leite, significa criar uma distinção enganosa.
Atrapalha, não ajuda a enfrentar os dilemas da economia agrária.

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